
Segunda-feira 9 de agosto de 2010. Acordei cansada, não consegui dormir relembrando o que havia me acontecido ontem. Quem era aquele homem? Porque tanto me encarava na praça da Rua Fosten? Era tão estranho. Agora eu sei... porque agora meu mundo é diferente... Estava com minha amiga Judite, tínhamos saido para tomar sorvete e comer pipoca de doce. Conversávamos sobre os garotos da equipe de volei da nossa faculdade, riamos muito e cada vez que falávamos de um dos meninos da equipe de volei Judite suspirava. Mas algo estava estranho para mim e me incomodava. O sol brilhava lindo e quente, porém senti um arrepio, um desconforto seguido de uma vertigem.
- Vick, o que houve com você? - perguntou Judite, assustada.
- Não sei, apenas fiquei tonta.
- Falta de sal, pressão baixa. Vou pegar um saco de pipoca salgada pra você! - exclamou.
Judite saiu, então aproveitei e olhei para todos os lados. A sensação de que estava sendo observada me deixou curiosa. Então eu vi, um homem sentado em outro banco distante que me encarava. Senti-me incomodada, e tentei desviar o olhar, não conseguia, era como se fosse mais forte do que eu. Voltei novamente o olhar para o lugar onde se encontrava o rapaz. Vazio. O banco encontra-se vazio. Procurei por todos os arredores e não encontrei nada, apenas crianças brincando, pais empurrando seus carrinhos de bebês, cachorros correndo de um lado para outro, mas o rapaz todo de preto que me fuzilava não estava mais lá.
- Aqui, pegue - disse Judite, enfiando um saco enorme de pipocas salgadas na minha cara.
- Não precisava disso tudo - resmunguei.
- Não comprei somente para você, também vou comer e se sobrar a gente alimenta os pombos e os peixes do lago.
- Você gasta dinheiro pra alimentar pombos e peixes? - perguntei incrédula.
- Quando sobra, sim! Alimento os animais. Agora coma e me diga porque você ficou assim, parece meio sonsa.
- Nada. Fiquei tonta e quando você saiu tinha um rapaz me observando ali daquele banco - apontei para o lugar onde sentava o misterioso rapaz.
- Mas não tem ninguém lá, e, você pode ter alucinado. Sabe, a mente pode provocar visões, essas coisas que só a psiquiatria entende. - Judite pareceu-me chamar de doida, foi isso que entendi.
Suspirei e comecei a comer a pipoca.
- Tá tudo bem. Me diga então, o cara era pelo menos bonito? - perguntou com olhar de compaixão ou de arrependimento.
- Porque se interessa? Depois de você praticamente me chamar de doida, não tenho porque te responder - falei de maneira grosseira.
- Mas eu quero saber e não me importo com a sua grosseria - rebateu.
- Charmoso - soltei.
- Como? Só isso?
- Não... Ah, sei lá! Pareceu sim, charmoso. Meio estranho, claro, mas charmoso - falei meio acanhada.
- Será que mora aqui por perto? Vai que mora ou pode ser que tenha se mudado recentemente. A vizinhança aqui é pequena, cidadezinha do interior será fácil encontrá-lo novamente - Os olhos de Judite pareciam tão esperançosos.
- Ah, para! Eu nem quero saber de relacionamentos por algum tempo e você sabe disso. Quebrei a cara com Grégori e agora não me interesso pela classe masculina. Quer saber mais? Eu dou razão para as garotas de se tornarem homossexuais, afinal... podem ter sofrido alguma desilusão grave, e com isso decidiram mudar de time - aleguei.
- Credo! Você não está pensando em mudar de lado, eu espero que não esteja! - reprovou Judite.
- Não, claro que não, mas pense bem. Tem muitas meninas que depois de uma desilusão buscam conforto nos braços de outra garota e acabam se entrosando... acho que você me entendeu!
- Entendo sim. Mas o que Grégori fez não tem perdão. Ele foi um canalha de chamá-la para se encontrar com ele e... - interrompi Judite, não queria lembrar.
- Não precisa dizer sobre aquilo. Ele está morto e enterrado assim como todos os demais homens que existem nesse mundo.
- Tudo bem, eu não falo. Mas não precisa enterrar todos os homens. Inclusive o tal cara misterioso e "charmoso". - Judite falou fazendo sinal de aspas com os dedos ao dizer a palavra charmoso.
- Um cara que fica te encarando e depois some, você acha que merece crédito? Não mesmo! E ele se foi, deve ter voltado para o cemitério. - Ao dizer isso, senti um arrepio.
- Você às vezes é tão mórbida. Mas morto ou não e se ele for realmente bonito, bem que podia cruzar o meu caminho, não pensaria duas vezes e o ressuscitaria! - exclamou Judite rindo alto.
- Boba!
- Boba eu? Você que se fecha para o mundo, deixa um cara charmoso desaparecer e eu que sou boba? Eu sou... espontânea, mas boba não!
- Vamos embora? Aqui a sua pipoca, toma e dê aos pombos por mim.
- Eu vou ficar mais um pouco, estou esperando Daniel aparecer, ele mandou mensagem disse que está a caminho.
- Você vai ficar então? Ótimo, mande um abraço meu a ele.
- Mando sim. E se cruzar com o rapaz charmoso mande um beijo meu a ele - Judite riu.
- Realmente você é super boba! já vou então. Espera aí, por acaso você e Daniel... estão tendo algo? - perguntei por curiosidade.
- Ainda não, estamos nos conhecendo, sabe. Estou estudando o território. Você entende o que eu quero dizer... ele é legal e tal, mas preciso saber quais as suas intenções, não quero mais brincar de namorar e depois de três meses quebrar a cara, então eu não corro atrás e se os rapazes quiserem, eles que venham atrás de mim - desabafou Judite.
- Está certinha. Eu é que não quero me envolver com mais ninguém. Ninguém!
- Mas eu não sei não. Esse rapaz mesmo o tal charmoso, ele tem um ar de mistério? - perguntou Judite com dúvida.
- Pareceu, porque? - perguntei sem entender onde ela queria chegar.
- Bingo! Você logo logo vai se interessar por ele, certeza.
- Porque você fala isso?
- Você adora mistério, adora ser desafiada. Você minha amiga Vick é super curiosa e qualquer coisa ou alguém que lhe desperte curiosidade você logo se interessa. Eu falo por que eu te conheço desde que começamos a brincar de bonecas - despejou na minha cara tudo o que eu não queria ouvir.
- Ah, dá um tempo. Com esse é diferente, eu não me senti atraída por ele e nem nada. E não vou me arriscar a segui-lo se eu o vir novamente. Ele pode ser um doido, sei não. Deixa eu ir embora e bom encontro com o Daniel. - me despedi acenando com a mão.
- Pode deixar, mas que você vai correr atrás do perigo é certeza! - gritou Judite ainda sentada no banco.
Louca. Eu não vou mesmo, apesar que me inspirou curiosidade, mas eu não vou não. Não dessa vez. Pensei.
Caminhei três quarteirões até a minha casa. O vento estava abafado, o sol quente o bastante para me deixar suada. Com certeza a noite seria mais uma daquelas noites de verão, mais uma noite abafada. Caminhava tranquilamente olhando os carros passando quando senti uma trombada me desequilibrando e indo ao chão.
- Ai, será que não olha por onde anda não? - perguntei nervosa tentado me levantar.
E uma mão se estendeu para me ajudar. Levantei a cabeça para ver quem era a pessoa que tinha trombado em mim, mas a pessoa estava a favor do sol e não pude ver seu rosto.
Segurei sua mão e com um puxão já estava de pé.
- Obrigada. Mas da próxima vez olha por onde anda - agradeci irritada.
- Olharia, se soubesse que essa era a única maneira que tive para estar perto de você - respondeu o mesmo rapaz que estava sentado no banco da praça há mais de vinte metros de distância de mim.
Meu coração bateu acelerado, quando vi o seu rosto, sua beleza era impressionante, e a única coisa que vinha a minha cabeça era "corra daqui, vá para longe". Mas não ouvi meus pensamentos. Ele era lindo o bastante pra não sair correndo. Perfeito demais. Ele usava tênis All Star preto, jeans black Levis e uma camiseta preta. Não havia a menor possibilidade de parar de encará-lo.
Foi então que ele perguntou ainda segurando a minha mão:
- Você está bem?
- Como? Hãn... - disse confusa, meio embriagada com o tom de sua voz e sua beleza.
- Parece que não. Você quer que eu te acompanhe até chegar em casa? - com um sorriso que mais parecia de deboche, perguntou.
Respirei fundo e disse:
- Não precisa e... solte a minha mão, eu sei o caminho. Obrigada. - As palavras saiam meio desconexas, meio irritada. Mas agradeci.
- Desculpe então, Vick, pelo desconforto. - ele falou o meu nome. Como ele sabe o meu nome?
- Espera, como você sabe o meu nome? Eu não lhe disse o meu nome. E qual o seu nome? - perguntei mais confusa ainda.
Ele sorriu novamente dizendo:
- Eu sei sobre muitas coisas, Vick. E, não... eu não voltei para o cemitério. Meu nome é Victor. - Falou com ar de mistério.
Assenti desviando o olhar, e estreitando os olhos.
- Ok. Eu tenho que ir. Até qualquer dia - falei dando um passo para o lado.
Senti meu braço sendo segurado e então ele me perguntou, trazendo meu corpo para mais junto ao dele:
- Por quê? Porque foge se tem vontade de ficar? Porque sente medo se tem desejo pelo perigo? Porque lutar se quer ser vencida?
Respondi com a voz mais calma do mundo, olhando para dentro dos seus olhos negros:
- Eu não fujo, apenas preciso ir embora, não estou com medo de você e não estou em uma batalha onde eu me veja lutando agora. Você é louco!
- Por você! - respondeu sem eu ter feito qualquer pergunta e do nada beijou meus lábios.
Não conseguia me desvencilhar de suas mãos que me segurava com força, seu beijo era macio e urgente, meu corpo todo estremeceu. Então em um ímpeto o empurrei para longe de mim, e caminhei rápido para longe rumo a minha casa.
Olhei para trás e não havia ninguém, assim que me virei ele estava na minha frente parado.
- Você é louco? Me deixa em paz! - gritei, virando para me afastar dele.
- Por você. Eu disse isso antes.
Então na raiva, virei ficando frente a ele e falei:
- E é assim que você aborda as pessoas quando fica afim? Eu não te dei liberdade alguma para que me beijasse. Agora deixa eu ir embora ou chamo a polícia.
- Nunca fiquei louco por ninguém e como você gosta de ser desafiada... achei melhor pular a parte da corte, como vocês dizem por aqui, as preliminares. E se você não me deu liberdade em beijá-la porque retribuiu o beijo? Eu sei que você não quer chamar a polícia, porque você querendo ou não, não sairá correndo daqui.
- E porque então Victor você diz que eu não sairia correndo?
- Simples. Porque você gosta de ser desafiada.
- Você, pelo visto, sabe muito sobre mim. De onde você veio? O que você quer? - perguntei.
- Eu sei tudo sobre você, Vick. E por você ser tão fascinante eu a quero para mim - respondeu-me se aproximando cada vez mais da minha orelha.
Outro arrepio ele conseguiu provocar em mim.
- Desculpe, mas eu não estou à venda.
- Tola, você já é minha. Não tem como voltar atrás. Você retribuiu o beijo então agora você me pertence - rebateu minha provocação sorrindo.
- Acabei de lhe dizer que não estou à venda, me deixe em paz - caminhei em disparada virando a esquina entrando na rua de casa, olhei para trás na certeza de não estar sendo seguida.
Victor estava parado e encostado no portão da minha casa quando volto a olhar pra frente. Parei subitamente, virando para o outro, na tentativa de mudar de caminho. Quando novamente ele apareceu do nada me puxando pelo braço.
- Mais uma dessa você arranca meu braço, seu maníaco! - resmunguei alto.
- Não vou machucá-la, não tenho motivo para fazer isso, apenas saiba que eu a amo desde que passou a existir para mim.
Olhei assustada e sua expressão era de dor.
- Como assim? Eu o vejo hoje e você já diz que me ama? - perguntei incrédula e continuei segurando-o pela camiseta - Quem é você?
- Você acredita em anjos? Não precisa responder, eu sei que acredita. Acredita em muitas coisas que não existem, você é romântica, devoradora de livros, apaixonada em sorvete de chocolate com gotas de chocolate branco. E sei também o que Grégori fez com você naquela noite, a vergonha e humilhação que fez você passar. Senti a sua dor, a sua raiva, o seu constrangimento. Vi você se esconder no guarda-roupas na tentativa frustrada de fugir do mundo. Estava ao seu lado quando cortou os pulsos e bebeu veneno. Mas acredite, ele nunca a mereceu e agora ele tem consciência do que perdeu - Victor foi relatando trechos da minha vida, coisas que fiz sem ninguém estar por perto, tremi com suas palavras, então continuou - Sempre estive ao seu lado, não agora, antes também. Venho te acompanhando há muito tempo. Você tem esperança de encontrar alguém que lhe faça suspirar, que te faça tremer e abalar a sua mente. Você quer para a sua vida o mesmo que está escrito nos livros que tem no seu quarto - sorriu carinhosamente e me segurando pela cintura.
- E como você sabe disso tudo? - insisti na pergunta com medo da resposta.
- Você ainda tem dúvidas do que eu sou?
Respirei fundo e falei entre uma lágrima e outra:
- O que aconteceu naquela noite... o que aconteceu naquela noite que Grégori me chamou até a casa dele, foi... foi horrível. Eu tinha certeza que o amava, talvez o bastante a ponto de trocar a minha vida pela dele... - então fui interrompida.
- ... mas vê-lo na cama com a garota mais fútil da faculdade foi um crime ao seu coração e tudo o que você acreditava já não era mais tão verdade assim.
- Como você sabe disso? - solucei não conseguindo conter as lágrimas que insistiam sair.
- Porque eu sou aquilo que você mais acredita e nunca vê... Eu sou quem te segue por todos os lugares e nos piores momentos te livra das enrascadas que você se mete... E quando você sofre ou chora eu sinto o mesmo, mas nunca pude aparecer... Sempre te abracei para tentar amenizar a sua dor, e nunca pude deixar que me visse, eu não tinha permissão para isso. Agora posso, porque deixei de ser o que sou para ficar com você, para sempre - sussurrou em meu ouvido.
Seus braços me envolveram e nada mais existiu, não tive mais medo e tudo ficou calmo, meu coração aqueceu e eu sussurrei baixinho:
- Meu anjo...
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