sábado, 21 de agosto de 2010

Refúgio de Rebecca


Finalmente estou em minha casa. Estou livre! Completamente liberta de tudo o que me prendia naquela boate. Estou cansada do barulho, da agitação, dos mesmos homens bêbados, mas hoje foi tão diferente, hoje foi literalmente azul. Nossa! Como posso ter sido tão inconsequente em aceitar a carona de Gustavo, os "meus" olhos azuis furtivos. Eu não deveria ter aceitado. Foi um erro. Agora ele sabe onde moro. E se ele for perigoso? Mas será? Acho que não. O que ele queria com uma garota dançarina que não tem onde cair morta? Contudo foi tão lindo, suas mãos com aqueles dedos longos enfiando cada vez mais nos meus cabelos. Percebi o quanto ele é diferente dos demais homens que vi saindo com as outras meninas, em nenhum momento ele avançou o sinal, até depois de chegarmos ele não ousou forçar nada comigo. Eu estaria sonhando? Eh, pode ter sido sim apenas um sonho. E que sonho perfeito foi esse.
Entretanto estou aqui no meu refúgio. Isolada no meu pequeno e humilde espaço sala; quarto; cozinha e banheiro, ao menos eu tenho uma banheira para me afogar quando me pegar pensando em Gustavo. Ah... seu nome é Gustavo, e, a maneira que ele me disse seu nome, foi como um sussurro quente na pele do meu rosto.
Agora eu preciso relaxar, preciso de um banho para apagar todas as lembranças boas e encarar a realidade do dia seguinte e ainda mais seis matérias na faculdade.
Como é confortante sentir a água passear pelo meu corpo, seria delicioso se fosse as mãos dos meus olhos azuis. Preciso esquece-lo ao menos por algumas horas, o que vier amanhã é lucro ou somente mais um trocado preso à minha calcinha. Ainda bem que sábado está perto, tanto a fazer: pintar o cabelo, manicure e pedicure, drenagem linfática e uma boa massagem relaxante com Yon Chun, chinês maravilhoso na arte de desatar os nós no meu corpo, o terrível é que cada seção custa setenta dólares, confesso que é um rombo no meu orçamento, contudo, compensatório.
Campainha? A essa hora? Quem pode ser?
Mas que insistente!
- Já vai, calma! - gritei me enrolando na toalha.
Novamente a insistência, eu juro que desligo essa campainha, juro!
- Calma! Já estou indo. Droga! - berrei.
Atravessei, o meu minúsculo quarto até a sala, irritadíssima e com os cabelos pingando.
- Eu disse, calma - bufei enquanto abria a porta.
E um imenso buquet de rosas vermelhas brotou na minha frente seguido de uma voz tranquila e suave:
- Desculpe-me pela insistência, não consegui esperar o sol nascer.
Era Gustavo atrás de todas aquelas rosas.
- Você? - perguntei surpresa.
- Acho que atrapalho, eu busco você na faculdade amanhã, se quiser - indagou com olhar triste.
Segurando o buquet com uma das mãos, o puxei pela camisa com a outra forçando-o a entrar.
- Nem pense em ir embora! - exclamei olhando dentro daquele mar azul.
De imediato seus braços me envolveram, seu beijo me acendeu. Nossos corpos refletiam a luz da lua e eu não tive força para enfrentar as seis aulas na faculdade.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Escolha de Rebecca

Então aquele homem de olhos azuis apareceu para me ver dançar. Sentou na melhor mesa da boate, bem na frente da pista de dança. A forma como ele me encarava era tão direta, tão intensa, que nem conseguia dar um passo sem olhar para aqueles olhos furtivos. Tentei fazer o meu melhor, a melhor apresentação seria a minha. "Faça parecer sensual, seja ousada para ele", pensei.
Ser garota striper tem lá as suas desvantagens, todos os homens acham que se é uma garota de programa, mas isso eu não faço. Dediquei tanto tempo da minha vida em ajudar a minha avó que assim que ela faleceu fui para a cidade grande tentar ganhar a vida e a única coisa que consegui foi ser striper em uma boate chique e com fama de "prostíbulo", porém eu era a única menina que não se interessava por isso. Recebi várias propostas, quantias altas foram me oferecidas, nenhuma eu aceitei. Sempre pensei em me entregar para aquele que me fizesse parar o coração, perder o rumo. Nunca apareceu esse alguém e eu nem faço tanta questão em procurar.
Apesar que esse homem foi diferente, meu coração não parou, mas minhas pernas tremeram. Sinto-me tão tola, estou com vinte e dois anos e pareço uma adolescente quando penso naquele homem lá fora, na maneira como me encarava, pareceu investir em mim.
- Rebecca, chegou isso aqui pra você - gritou Marluce no meu camarim.
- O que é? - perguntei.
- Rosas. E vermelhas! Provavelmente o cara deve estar apaixonado - disse-me de maneira sarcástica.
- Mais outro cara sem noção. Pode ficar pra você - falei, ignorando as flores.
- Eu não quero isso. Mas leia o cartão, talvez te interesse - Marluce falou soltando as rosas na minha penteadeira.
Hesitante peguei o cartão preso as rosas e dizia com uma caligrafia perfeita: Dançou divinamente, pena que não foi apenas para mim! Ass: Olhos azuis.
Sai correndo do camarim com as rosas em uma das mãos e o vi sentado no mesmo lugar e levava uma taça de vinho à boca, lindo, perfeito.
- Oi. São suas? - perguntei ofegante.
- Que bom tê-las recebido, sente-se.
Sua voz era suave, calma. Dessa vez senti meu coração bater mais rápido.
- Você não parece fazer parte disso aqui. Foi a única coisa que conseguiu? - perguntou.
- Sim, mas estou em busca de outra coisa. Às vezes a vida não nos dá escolhas.
- Mas você escolheu trabalhar aqui sem se vender.
- Foi apenas uma condição imposta por mim, bem que tentaram me corromper. E acho que ainda tenho princípios.
Ele sorriu para mim, tomando minha mão e beijando meu punho, e falou olhando dentro dos meus olhos:
- Todos nós temos escolhas, eu te escolhi e sei que você me escolheu também.
E então seu beijo ardeu em meus lábios me fazendo escolher entregar minha alma àquele homem.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Maçã podre

Agora eu sei...
Seu coração é uma maçã apodrecida que nunca foi colhida pelo sentimento do amor.
Te dei tanto carinho e você apenas riu e nada retribuiu.
Se eu devo chorar? Você acha? Eu penso que não!
Por você não... nunca precisei de me desfalecer por tua causa, tua ironia ou minha utopia.
Valeu enquanto tinha que valer... hoje já não vale meia migalha de pão velho...
Quem perdeu não foi eu. VOCÊ! Somente você que saiu prejudicado nessa história cinza, escrita a lápis e teias de aranhas pelos cantos da sala.
Perdeu! Eu não ganhei nada, apenas me poupei do desprazer de te ver novamente.
Comigo não...
A mim, você não engana e nem encanta mais!!!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Sempre haverá um Girassol no meu caminho

Fantasias, paetês jogados na minha cabeça. Estou perdida e caminhando em uma estrada de girassóis. As luzes dos letreiros piscam e não indicam o lugar certo para eu seguir. O céu, apenas escuridão. Corro na tentativa frustrada de fugir. Fugir de você, fugir de mim, fugir dos paetês , da minha vida...
Mas sempre tem um girassol. Rastro... caminho de girassóis...
Agacho-me para pega-los, cada girassol, um a um... Levanto-me e vejo "é lindo, belo, perfeito, saudável e jovem". Apenas o encaro, ele se aproxima cada vez mais, toca meu rosto com suas mãos quentes, sinto todas as células do meu corpo paralisar. Não quero mais nada, deixa os paetês caírem, chuva de estrelas por cima de mim.
Sinto-me feliz.
Seus braços me envolvem em uma trama perfeita para que eu jamais saia, e nem quero. Então nos beijamos, sim, eu estou feliz.
E os paetês somem, as fantasias desaparecem... tudo é diferente.
E sua voz sussurra ao meu ouvido "SEMPRE HAVERÁ UM GIRASSOL NO SEU CAMINHO"...

domingo, 15 de agosto de 2010

Paraíso de Girassóis

Papai havia irrigado toda a plantação de girassóis, faltava pouco para o fim da colheita e finalmente poderia descansar.
Eu o ajudei em tudo o que pode, estávamos felizes, a safra seria boa, ganharíamos o bastante para pagarmos os fornecedores e ainda teríamos muito para adquirir mais sacas de sementes de girassóis. Éramos apenas eu e meu pai, mamãe havia falecido a cerca de um ano de tifo em uma de suas idas à África. Superamos sua ausência e nos mergulhamos na plantação.
- Luciana, venha aqui e me ajude a analisar a qualidade das sementes - gritou meu pai do lado de fora da casa.
- Já vou, pai!
Corri para ajudá-lo, ele parecia feliz.
- Aqui, veja essa semente - disse, me passando uma enorme semente de girassol já tostada pelo isqueiro.
- Hum... bem... ainda está um pouco verde, talvez daqui uns três ou quatro dias já esteja madura para colhermos - sinalizei.
- Eh, melhor esperarmos então. Mas me diga filha, como você está na escola? Desde que sua mãe partiu você nunca mais falou sobre seus estudos.
- Ah, pai. Está normal, estou bem. Juro! - respondi levantando as mãos para cima demonstrando que estava tudo bem.
- Certo. E... eu sei que é estranho perguntar, mas e o Ygor? Você nunca mais falou dele e notei que ele não tem vindo mais aqui te ver - meu pai parecia curioso em saber sobre meus relacionamentos.
- Ah... é complicado. Não deu certo, ele é legal, mas somente como amigo. Não gosto dele a ponto de falar em amor, entende!?
- Tudo bem filha, e saiba que se precisar conversar sobre qualquer coisa, você tem seu pai aqui. Nunca se esqueça disso - sorriu passando a mão na minha cabeça e saiu para abastecer o trator.
Então senti meu celular vibrar no bolso de trás da minha calça.
"Número desconhecido?", pensei.
- Alô? - atendi.
- Luciana sou eu Ygor, preciso falar com você, é urgente! - sua voz parecia realmente urgente.
- Certo, aconteceu alguma coisa?
- Não! É... sim, mas preciso que venha logo, é urgente! - senti aflição na voz de Ygor.
- Tá! Tudo bem. Onde você está? - minha voz parecia nervosa.
Por sorte ou azar meu pai não estava próximo.
- Qual o endereço? Eu vou pegar o carro estarei aí daqui uns 20 a 30 min.
- Certo, eu espero. Estou na viela 320 depois da rua 48 em Bosklon - depois de me passar o endereço a ligação caiu.
- Ygor? Ygor?? Droga a ligação caiu. Que estranho, o Ygor nunca foi de me ligar desse jeito. - Indaguei desligando o celular.
Caminhei até o carro e gritei para o meu pai:
- Sr. Claudio! Estou comunicando a minha retirada até a cidade - e sorri.
- Onde você vai? - gritou vindo ao meu encontro.
- Vou até Bosklon, recebi uma ligação de Ygor e preciso ir até lá.
- Cuidado filha, esse bairro é um pouco perigoso - alertou-me.
- Tudo bem, eu acho que sei me cuidar, tchau - falei entrando no carro.
Segui até a rodovia principal que dava para o centro e com mais 5 minutos já estava em Bosklon. Realmente o contraste desse setor com o Centro era gritante, várias casas amontoadas sobre as outras, um cenário perfeito para um filme do Jack Estripador. Deixei o carro na entrada do setor, estacionado em frente a uma loja de calçados e segui até a viela 320. Me senti desconfortável pois as pessoas me encaravam de uma maneira estranha. Nem bem arruma estava. Usava sapatilha preta, calça jeans e uma camisete xadrez vermelha.
Assim que cheguei até a viela meu celular vibrou novamente, então atendi.
- Oi?
- Você já chegou? - era a voz de Ygor ao telefone.
- Sim, onde você está? Aqui é escuro... - fui interrompida pelas suas instruções.
- Tem um portão grande de correr à sua direita abra.
Apalpei a parede quando encontrei o portão, forcei para abri-lo, mas estava muito pesado.
- Eu não tenho força para abrir - resmunguei ao telefone.
- Coloca mais força e entre.
- Tá bom!
E novamente forcei com mais força quando, o portão começou a correr. Entrei devagar e forçando a enxergar em meio a tanta escuridão, levei algum tempo para me acostumar com a penumbra.
- Ygor, consegui entrar. Cadê você?
Senti um solavanco no meu corpo e uma mão tapando a minha boca.
- Xiii... não estamos sozinhos, nunca estivemos - a voz de Ygor sussurrava no meu ouvido.
- Humm... - murmurei, em poder dizer uma só palavra.
- Eu vou te soltar, mas prometa que não vai gritar.
Balancei a cabeça em acordo.
- O que está acontecendo? - perguntei baixinho, conseguindo ver apenas seu vulto perto de mim.
- Luciana, você precisa saber de uma coisa... - sussurrou.
- Que coisa? - segurei seu braço o mais firme que podia, não querendo me afastar por receio que algo ruim viesse acontecer.
- Sabia que não era para você estar mais aqui? Sabia que foi um erro a sua mãe ter morrido? Era para ter sido você e não ela - Questionou me abraçando e me apertando cada vez mais contra o seu corpo.
- Do que você está falando? - levantei o rosto para tentar ver a expressão de seu rosto, mas a penumbra não me deixava ver com precisão.
- Você não sabe de nada mesmo! - Ygor Lamentou.
- Ygor... o que... porque sua voz está estranha?
- Pra você eu sou Ygor, só que eu nunca fui verdadeiramente Ygor para os outros - sua voz ainda era um sussurro, porém carregada áspera talvez.
Sem querer uma lágrima brotou de meus olhos.
- Chorando? Não precisa chorar. Você sai de cena e sua mãe retorna ao mundo dos vivos... É simples.
- Então... você vai me matar? - perguntei respirando fundo.
- Não. Irei apenas levá-la para o meu mundo - respondeu.
- E... onde... é o seu mundo? - perguntei enterrando meu rosto em seu peito. Senti medo da resposta.
- Abra os olhos!
Assim que abri os olhos vi tanta luz, tanta claridade, precisei tapa-los para acostumar com a luz. Estávamos cercados por girassóis, pássaros cantavam e faziam festa nas sementes.
- Onde estou?
- Paraíso...
Olhei para Ygor e o vi todo de branco e com pés descalços.
- O que você é afinal?
- Um amigo, apenas ajudo as pessoas a fazer a passagem.
- Então estou morta?
- Eu creio que sim, para os humanos sim. Aqui você nunca morrerá. E eu sempre estarei com você.
- Mas e meu pai?
- Sua mãe está com ele. O tempo voltou. Não era para ter sido daquela maneira. Precisei colocar tudo em ordem, pois o mal queria a alma da sua mãe e para resgatá-la do inferno foi preciso sacrificar a sua vida.
- Então todos ficarão bem?
- Já estão!

sábado, 14 de agosto de 2010

Sol vermelho


Hoje, sábado, estava decidida a ficar em casa. Não queria nenhum contato com o mundo externo, mas eu querer nem sempre é poder!
Já por volta das 17:30h sai muito a contra gosto, minha mãe pediu insistentemente para ir ao supermercado fazer comprar. Será que não poderia esperar até segunda-feira? O meu desejo era hibernar no meu quarto, curtir a preguiça, relaxar meu corpo em cima da minha cama e depois esparramar na frente do computador e acessar meu twitter, orkut, blogger... e alguns sites de celebridades. Mas, se eu não fizesse o que a minha mãe havia ordenado, bem capaz da casa cair na minha cabeça.
Peguei o carro e sai. Estava tão imersa em meus pensamentos que nem percebi a maneira como dirigia. Provavelmente dirigia normal, não ouvi nenhum barulho de buzina atrás de mim. Pelo retrovisor algo me chamou a atenção, uma luz alaranjada. Decidi então parar o carro no acostamento, desci para ver o que tinha desviado a minha atenção. Que luz era aquela? Olhei para os lados e não havia nada de mais, carros transitavam, pessoas passavam. Olhei então para o céu e vi... O sol estava vermelho... fiquei por cerca de uns cinco minutos contemplando a sua cor.
Então voltei para o carro e segui rumo ao supermercado, peguei tudo o que estava na lista de compras. Depois de pagar, fui ao estacionamento, estava um pouco escuro, algumas lâmpadas queimadas. Parecia mais um filme de terror, se fosse já estaria morta pois sempre quem sobrevive são as virgens. Definitivamente eu já teria morrido (risos).
Vim embora e no caminho pra casa escutava Marilyn Manson. E tudo correu bem!
O importante é que estou no meu refúgio, cercada pelos meus livros, meu computador e meus pensamentos um tanto quanto sinistros.

E assim a vida continua até a próxima história!

Vazio e Esperança


Segunda-feira 9 de agosto de 2010. Acordei cansada, não consegui dormir relembrando o que havia me acontecido ontem. Quem era aquele homem? Porque tanto me encarava na praça da Rua Fosten? Era tão estranho. Agora eu sei... porque agora meu mundo é diferente... Estava com minha amiga Judite, tínhamos saido para tomar sorvete e comer pipoca de doce. Conversávamos sobre os garotos da equipe de volei da nossa faculdade, riamos muito e cada vez que falávamos de um dos meninos da equipe de volei Judite suspirava. Mas algo estava estranho para mim e me incomodava. O sol brilhava lindo e quente, porém senti um arrepio, um desconforto seguido de uma vertigem.
- Vick, o que houve com você? - perguntou Judite, assustada.
- Não sei, apenas fiquei tonta.
- Falta de sal, pressão baixa. Vou pegar um saco de pipoca salgada pra você! - exclamou.
Judite saiu, então aproveitei e olhei para todos os lados. A sensação de que estava sendo observada me deixou curiosa. Então eu vi, um homem sentado em outro banco distante que me encarava. Senti-me incomodada, e tentei desviar o olhar, não conseguia, era como se fosse mais forte do que eu. Voltei novamente o olhar para o lugar onde se encontrava o rapaz. Vazio. O banco encontra-se vazio. Procurei por todos os arredores e não encontrei nada, apenas crianças brincando, pais empurrando seus carrinhos de bebês, cachorros correndo de um lado para outro, mas o rapaz todo de preto que me fuzilava não estava mais lá.
- Aqui, pegue - disse Judite, enfiando um saco enorme de pipocas salgadas na minha cara.
- Não precisava disso tudo - resmunguei.
- Não comprei somente para você, também vou comer e se sobrar a gente alimenta os pombos e os peixes do lago.
- Você gasta dinheiro pra alimentar pombos e peixes? - perguntei incrédula.
- Quando sobra, sim! Alimento os animais. Agora coma e me diga porque você ficou assim, parece meio sonsa.
- Nada. Fiquei tonta e quando você saiu tinha um rapaz me observando ali daquele banco - apontei para o lugar onde sentava o misterioso rapaz.
- Mas não tem ninguém lá, e, você pode ter alucinado. Sabe, a mente pode provocar visões, essas coisas que só a psiquiatria entende. - Judite pareceu-me chamar de doida, foi isso que entendi.
Suspirei e comecei a comer a pipoca.
- Tá tudo bem. Me diga então, o cara era pelo menos bonito? - perguntou com olhar de compaixão ou de arrependimento.
- Porque se interessa? Depois de você praticamente me chamar de doida, não tenho porque te responder - falei de maneira grosseira.
- Mas eu quero saber e não me importo com a sua grosseria - rebateu.
- Charmoso - soltei.
- Como? Só isso?
- Não... Ah, sei lá! Pareceu sim, charmoso. Meio estranho, claro, mas charmoso - falei meio acanhada.
- Será que mora aqui por perto? Vai que mora ou pode ser que tenha se mudado recentemente. A vizinhança aqui é pequena, cidadezinha do interior será fácil encontrá-lo novamente - Os olhos de Judite pareciam tão esperançosos.
- Ah, para! Eu nem quero saber de relacionamentos por algum tempo e você sabe disso. Quebrei a cara com Grégori e agora não me interesso pela classe masculina. Quer saber mais? Eu dou razão para as garotas de se tornarem homossexuais, afinal... podem ter sofrido alguma desilusão grave, e com isso decidiram mudar de time - aleguei.
- Credo! Você não está pensando em mudar de lado, eu espero que não esteja! - reprovou Judite.
- Não, claro que não, mas pense bem. Tem muitas meninas que depois de uma desilusão buscam conforto nos braços de outra garota e acabam se entrosando... acho que você me entendeu!
- Entendo sim. Mas o que Grégori fez não tem perdão. Ele foi um canalha de chamá-la para se encontrar com ele e... - interrompi Judite, não queria lembrar.
- Não precisa dizer sobre aquilo. Ele está morto e enterrado assim como todos os demais homens que existem nesse mundo.
- Tudo bem, eu não falo. Mas não precisa enterrar todos os homens. Inclusive o tal cara misterioso e "charmoso". - Judite falou fazendo sinal de aspas com os dedos ao dizer a palavra charmoso.
- Um cara que fica te encarando e depois some, você acha que merece crédito? Não mesmo! E ele se foi, deve ter voltado para o cemitério. - Ao dizer isso, senti um arrepio.
- Você às vezes é tão mórbida. Mas morto ou não e se ele for realmente bonito, bem que podia cruzar o meu caminho, não pensaria duas vezes e o ressuscitaria! - exclamou Judite rindo alto.
- Boba!
- Boba eu? Você que se fecha para o mundo, deixa um cara charmoso desaparecer e eu que sou boba? Eu sou... espontânea, mas boba não!
- Vamos embora? Aqui a sua pipoca, toma e dê aos pombos por mim.
- Eu vou ficar mais um pouco, estou esperando Daniel aparecer, ele mandou mensagem disse que está a caminho.
- Você vai ficar então? Ótimo, mande um abraço meu a ele.
- Mando sim. E se cruzar com o rapaz charmoso mande um beijo meu a ele - Judite riu.
- Realmente você é super boba! já vou então. Espera aí, por acaso você e Daniel... estão tendo algo? - perguntei por curiosidade.
- Ainda não, estamos nos conhecendo, sabe. Estou estudando o território. Você entende o que eu quero dizer... ele é legal e tal, mas preciso saber quais as suas intenções, não quero mais brincar de namorar e depois de três meses quebrar a cara, então eu não corro atrás e se os rapazes quiserem, eles que venham atrás de mim - desabafou Judite.
- Está certinha. Eu é que não quero me envolver com mais ninguém. Ninguém!
- Mas eu não sei não. Esse rapaz mesmo o tal charmoso, ele tem um ar de mistério? - perguntou Judite com dúvida.
- Pareceu, porque? - perguntei sem entender onde ela queria chegar.
- Bingo! Você logo logo vai se interessar por ele, certeza.
- Porque você fala isso?
- Você adora mistério, adora ser desafiada. Você minha amiga Vick é super curiosa e qualquer coisa ou alguém que lhe desperte curiosidade você logo se interessa. Eu falo por que eu te conheço desde que começamos a brincar de bonecas - despejou na minha cara tudo o que eu não queria ouvir.
- Ah, dá um tempo. Com esse é diferente, eu não me senti atraída por ele e nem nada. E não vou me arriscar a segui-lo se eu o vir novamente. Ele pode ser um doido, sei não. Deixa eu ir embora e bom encontro com o Daniel. - me despedi acenando com a mão.
- Pode deixar, mas que você vai correr atrás do perigo é certeza! - gritou Judite ainda sentada no banco.
Louca. Eu não vou mesmo, apesar que me inspirou curiosidade, mas eu não vou não. Não dessa vez. Pensei.
Caminhei três quarteirões até a minha casa. O vento estava abafado, o sol quente o bastante para me deixar suada. Com certeza a noite seria mais uma daquelas noites de verão, mais uma noite abafada. Caminhava tranquilamente olhando os carros passando quando senti uma trombada me desequilibrando e indo ao chão.
- Ai, será que não olha por onde anda não? - perguntei nervosa tentado me levantar.
E uma mão se estendeu para me ajudar. Levantei a cabeça para ver quem era a pessoa que tinha trombado em mim, mas a pessoa estava a favor do sol e não pude ver seu rosto.
Segurei sua mão e com um puxão já estava de pé.
- Obrigada. Mas da próxima vez olha por onde anda - agradeci irritada.
- Olharia, se soubesse que essa era a única maneira que tive para estar perto de você - respondeu o mesmo rapaz que estava sentado no banco da praça há mais de vinte metros de distância de mim.
Meu coração bateu acelerado, quando vi o seu rosto, sua beleza era impressionante, e a única coisa que vinha a minha cabeça era "corra daqui, vá para longe". Mas não ouvi meus pensamentos. Ele era lindo o bastante pra não sair correndo. Perfeito demais. Ele usava tênis All Star preto, jeans black Levis e uma camiseta preta. Não havia a menor possibilidade de parar de encará-lo.
Foi então que ele perguntou ainda segurando a minha mão:
- Você está bem?
- Como? Hãn... - disse confusa, meio embriagada com o tom de sua voz e sua beleza.
- Parece que não. Você quer que eu te acompanhe até chegar em casa? - com um sorriso que mais parecia de deboche, perguntou.
Respirei fundo e disse:
- Não precisa e... solte a minha mão, eu sei o caminho. Obrigada. - As palavras saiam meio desconexas, meio irritada. Mas agradeci.
- Desculpe então, Vick, pelo desconforto. - ele falou o meu nome. Como ele sabe o meu nome?
- Espera, como você sabe o meu nome? Eu não lhe disse o meu nome. E qual o seu nome? - perguntei mais confusa ainda.
Ele sorriu novamente dizendo:
- Eu sei sobre muitas coisas, Vick. E, não... eu não voltei para o cemitério. Meu nome é Victor. - Falou com ar de mistério.
Assenti desviando o olhar, e estreitando os olhos.
- Ok. Eu tenho que ir. Até qualquer dia - falei dando um passo para o lado.
Senti meu braço sendo segurado e então ele me perguntou, trazendo meu corpo para mais junto ao dele:
- Por quê? Porque foge se tem vontade de ficar? Porque sente medo se tem desejo pelo perigo? Porque lutar se quer ser vencida?
Respondi com a voz mais calma do mundo, olhando para dentro dos seus olhos negros:
- Eu não fujo, apenas preciso ir embora, não estou com medo de você e não estou em uma batalha onde eu me veja lutando agora. Você é louco!
- Por você! - respondeu sem eu ter feito qualquer pergunta e do nada beijou meus lábios.
Não conseguia me desvencilhar de suas mãos que me segurava com força, seu beijo era macio e urgente, meu corpo todo estremeceu. Então em um ímpeto o empurrei para longe de mim, e caminhei rápido para longe rumo a minha casa.
Olhei para trás e não havia ninguém, assim que me virei ele estava na minha frente parado.
- Você é louco? Me deixa em paz! - gritei, virando para me afastar dele.
- Por você. Eu disse isso antes.
Então na raiva, virei ficando frente a ele e falei:
- E é assim que você aborda as pessoas quando fica afim? Eu não te dei liberdade alguma para que me beijasse. Agora deixa eu ir embora ou chamo a polícia.
- Nunca fiquei louco por ninguém e como você gosta de ser desafiada... achei melhor pular a parte da corte, como vocês dizem por aqui, as preliminares. E se você não me deu liberdade em beijá-la porque retribuiu o beijo? Eu sei que você não quer chamar a polícia, porque você querendo ou não, não sairá correndo daqui.
- E porque então Victor você diz que eu não sairia correndo?
- Simples. Porque você gosta de ser desafiada.
- Você, pelo visto, sabe muito sobre mim. De onde você veio? O que você quer? - perguntei.
- Eu sei tudo sobre você, Vick. E por você ser tão fascinante eu a quero para mim - respondeu-me se aproximando cada vez mais da minha orelha.
Outro arrepio ele conseguiu provocar em mim.
- Desculpe, mas eu não estou à venda.
- Tola, você já é minha. Não tem como voltar atrás. Você retribuiu o beijo então agora você me pertence - rebateu minha provocação sorrindo.
- Acabei de lhe dizer que não estou à venda, me deixe em paz - caminhei em disparada virando a esquina entrando na rua de casa, olhei para trás na certeza de não estar sendo seguida.
Victor estava parado e encostado no portão da minha casa quando volto a olhar pra frente. Parei subitamente, virando para o outro, na tentativa de mudar de caminho. Quando novamente ele apareceu do nada me puxando pelo braço.
- Mais uma dessa você arranca meu braço, seu maníaco! - resmunguei alto.
- Não vou machucá-la, não tenho motivo para fazer isso, apenas saiba que eu a amo desde que passou a existir para mim.
Olhei assustada e sua expressão era de dor.
- Como assim? Eu o vejo hoje e você já diz que me ama? - perguntei incrédula e continuei segurando-o pela camiseta - Quem é você?
- Você acredita em anjos? Não precisa responder, eu sei que acredita. Acredita em muitas coisas que não existem, você é romântica, devoradora de livros, apaixonada em sorvete de chocolate com gotas de chocolate branco. E sei também o que Grégori fez com você naquela noite, a vergonha e humilhação que fez você passar. Senti a sua dor, a sua raiva, o seu constrangimento. Vi você se esconder no guarda-roupas na tentativa frustrada de fugir do mundo. Estava ao seu lado quando cortou os pulsos e bebeu veneno. Mas acredite, ele nunca a mereceu e agora ele tem consciência do que perdeu - Victor foi relatando trechos da minha vida, coisas que fiz sem ninguém estar por perto, tremi com suas palavras, então continuou - Sempre estive ao seu lado, não agora, antes também. Venho te acompanhando há muito tempo. Você tem esperança de encontrar alguém que lhe faça suspirar, que te faça tremer e abalar a sua mente. Você quer para a sua vida o mesmo que está escrito nos livros que tem no seu quarto - sorriu carinhosamente e me segurando pela cintura.
- E como você sabe disso tudo? - insisti na pergunta com medo da resposta.
- Você ainda tem dúvidas do que eu sou?
Respirei fundo e falei entre uma lágrima e outra:
- O que aconteceu naquela noite... o que aconteceu naquela noite que Grégori me chamou até a casa dele, foi... foi horrível. Eu tinha certeza que o amava, talvez o bastante a ponto de trocar a minha vida pela dele... - então fui interrompida.
- ... mas vê-lo na cama com a garota mais fútil da faculdade foi um crime ao seu coração e tudo o que você acreditava já não era mais tão verdade assim.
- Como você sabe disso? - solucei não conseguindo conter as lágrimas que insistiam sair.
- Porque eu sou aquilo que você mais acredita e nunca vê... Eu sou quem te segue por todos os lugares e nos piores momentos te livra das enrascadas que você se mete... E quando você sofre ou chora eu sinto o mesmo, mas nunca pude aparecer... Sempre te abracei para tentar amenizar a sua dor, e nunca pude deixar que me visse, eu não tinha permissão para isso. Agora posso, porque deixei de ser o que sou para ficar com você, para sempre - sussurrou em meu ouvido.
Seus braços me envolveram e nada mais existiu, não tive mais medo e tudo ficou calmo, meu coração aqueceu e eu sussurrei baixinho:
- Meu anjo...