domingo, 15 de agosto de 2010

Paraíso de Girassóis

Papai havia irrigado toda a plantação de girassóis, faltava pouco para o fim da colheita e finalmente poderia descansar.
Eu o ajudei em tudo o que pode, estávamos felizes, a safra seria boa, ganharíamos o bastante para pagarmos os fornecedores e ainda teríamos muito para adquirir mais sacas de sementes de girassóis. Éramos apenas eu e meu pai, mamãe havia falecido a cerca de um ano de tifo em uma de suas idas à África. Superamos sua ausência e nos mergulhamos na plantação.
- Luciana, venha aqui e me ajude a analisar a qualidade das sementes - gritou meu pai do lado de fora da casa.
- Já vou, pai!
Corri para ajudá-lo, ele parecia feliz.
- Aqui, veja essa semente - disse, me passando uma enorme semente de girassol já tostada pelo isqueiro.
- Hum... bem... ainda está um pouco verde, talvez daqui uns três ou quatro dias já esteja madura para colhermos - sinalizei.
- Eh, melhor esperarmos então. Mas me diga filha, como você está na escola? Desde que sua mãe partiu você nunca mais falou sobre seus estudos.
- Ah, pai. Está normal, estou bem. Juro! - respondi levantando as mãos para cima demonstrando que estava tudo bem.
- Certo. E... eu sei que é estranho perguntar, mas e o Ygor? Você nunca mais falou dele e notei que ele não tem vindo mais aqui te ver - meu pai parecia curioso em saber sobre meus relacionamentos.
- Ah... é complicado. Não deu certo, ele é legal, mas somente como amigo. Não gosto dele a ponto de falar em amor, entende!?
- Tudo bem filha, e saiba que se precisar conversar sobre qualquer coisa, você tem seu pai aqui. Nunca se esqueça disso - sorriu passando a mão na minha cabeça e saiu para abastecer o trator.
Então senti meu celular vibrar no bolso de trás da minha calça.
"Número desconhecido?", pensei.
- Alô? - atendi.
- Luciana sou eu Ygor, preciso falar com você, é urgente! - sua voz parecia realmente urgente.
- Certo, aconteceu alguma coisa?
- Não! É... sim, mas preciso que venha logo, é urgente! - senti aflição na voz de Ygor.
- Tá! Tudo bem. Onde você está? - minha voz parecia nervosa.
Por sorte ou azar meu pai não estava próximo.
- Qual o endereço? Eu vou pegar o carro estarei aí daqui uns 20 a 30 min.
- Certo, eu espero. Estou na viela 320 depois da rua 48 em Bosklon - depois de me passar o endereço a ligação caiu.
- Ygor? Ygor?? Droga a ligação caiu. Que estranho, o Ygor nunca foi de me ligar desse jeito. - Indaguei desligando o celular.
Caminhei até o carro e gritei para o meu pai:
- Sr. Claudio! Estou comunicando a minha retirada até a cidade - e sorri.
- Onde você vai? - gritou vindo ao meu encontro.
- Vou até Bosklon, recebi uma ligação de Ygor e preciso ir até lá.
- Cuidado filha, esse bairro é um pouco perigoso - alertou-me.
- Tudo bem, eu acho que sei me cuidar, tchau - falei entrando no carro.
Segui até a rodovia principal que dava para o centro e com mais 5 minutos já estava em Bosklon. Realmente o contraste desse setor com o Centro era gritante, várias casas amontoadas sobre as outras, um cenário perfeito para um filme do Jack Estripador. Deixei o carro na entrada do setor, estacionado em frente a uma loja de calçados e segui até a viela 320. Me senti desconfortável pois as pessoas me encaravam de uma maneira estranha. Nem bem arruma estava. Usava sapatilha preta, calça jeans e uma camisete xadrez vermelha.
Assim que cheguei até a viela meu celular vibrou novamente, então atendi.
- Oi?
- Você já chegou? - era a voz de Ygor ao telefone.
- Sim, onde você está? Aqui é escuro... - fui interrompida pelas suas instruções.
- Tem um portão grande de correr à sua direita abra.
Apalpei a parede quando encontrei o portão, forcei para abri-lo, mas estava muito pesado.
- Eu não tenho força para abrir - resmunguei ao telefone.
- Coloca mais força e entre.
- Tá bom!
E novamente forcei com mais força quando, o portão começou a correr. Entrei devagar e forçando a enxergar em meio a tanta escuridão, levei algum tempo para me acostumar com a penumbra.
- Ygor, consegui entrar. Cadê você?
Senti um solavanco no meu corpo e uma mão tapando a minha boca.
- Xiii... não estamos sozinhos, nunca estivemos - a voz de Ygor sussurrava no meu ouvido.
- Humm... - murmurei, em poder dizer uma só palavra.
- Eu vou te soltar, mas prometa que não vai gritar.
Balancei a cabeça em acordo.
- O que está acontecendo? - perguntei baixinho, conseguindo ver apenas seu vulto perto de mim.
- Luciana, você precisa saber de uma coisa... - sussurrou.
- Que coisa? - segurei seu braço o mais firme que podia, não querendo me afastar por receio que algo ruim viesse acontecer.
- Sabia que não era para você estar mais aqui? Sabia que foi um erro a sua mãe ter morrido? Era para ter sido você e não ela - Questionou me abraçando e me apertando cada vez mais contra o seu corpo.
- Do que você está falando? - levantei o rosto para tentar ver a expressão de seu rosto, mas a penumbra não me deixava ver com precisão.
- Você não sabe de nada mesmo! - Ygor Lamentou.
- Ygor... o que... porque sua voz está estranha?
- Pra você eu sou Ygor, só que eu nunca fui verdadeiramente Ygor para os outros - sua voz ainda era um sussurro, porém carregada áspera talvez.
Sem querer uma lágrima brotou de meus olhos.
- Chorando? Não precisa chorar. Você sai de cena e sua mãe retorna ao mundo dos vivos... É simples.
- Então... você vai me matar? - perguntei respirando fundo.
- Não. Irei apenas levá-la para o meu mundo - respondeu.
- E... onde... é o seu mundo? - perguntei enterrando meu rosto em seu peito. Senti medo da resposta.
- Abra os olhos!
Assim que abri os olhos vi tanta luz, tanta claridade, precisei tapa-los para acostumar com a luz. Estávamos cercados por girassóis, pássaros cantavam e faziam festa nas sementes.
- Onde estou?
- Paraíso...
Olhei para Ygor e o vi todo de branco e com pés descalços.
- O que você é afinal?
- Um amigo, apenas ajudo as pessoas a fazer a passagem.
- Então estou morta?
- Eu creio que sim, para os humanos sim. Aqui você nunca morrerá. E eu sempre estarei com você.
- Mas e meu pai?
- Sua mãe está com ele. O tempo voltou. Não era para ter sido daquela maneira. Precisei colocar tudo em ordem, pois o mal queria a alma da sua mãe e para resgatá-la do inferno foi preciso sacrificar a sua vida.
- Então todos ficarão bem?
- Já estão!

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